17 de fevereiro de 2011
A APOSENTADORIA DO “FENÔMENO”: O QUE ISTO TEM A VER COM CUIDADO PASTORAL?
Postado por
Ronaldo Sathler-Rosa
Embora não seja um aficionado extremado de futebol, acompanhei a entrevista em que o jogador Ronaldo, chamado de “fenômeno”, anunciou sua aposentadoria dos gramados. O que tem isso a ver com cuidado pastoral? Algumas coisas ouvidas me levaram a esse pequeno escrito.
Na entrevista ficou evidente a emoção do jogador diante desse marco tão importante: o encerramento de uma atividade de longa duração e o início de outra fase de vida. É uma transição que exige preparação, maturidade e outros olhares na direção de novas esperanças. Uma nova etapa da existência é tempo muito oportuno para a busca de outras perspectivas e renovadas atividades que podem proporcionar muita alegria pessoal, além de estimular o desenvolvimento de atitudes altruístas em direção ao próximo e à vida no planeta. Exige, portanto, cuidados. O que está em jogo é a continuação da vida, Dom do Criador e, ao mesmo tempo, tarefa nossa.
Mas, as entrevistas e os fatos noticiados em relação a esse jogador evidenciam um padrão atual da “civilização” que é gerador de doenças e disfunções. Tomemos uma das coisas que foram ditas pelo jogador.
Disse que o calendário de jogos é excessivo. Muitos jogos, mais treinamento, longas viagens acabam favorecendo o surgimento de lesões graves, além de contribuir para a violência. Leio notícias de que há muita gente doente, ou potencialmente enferma, em conseqüência de excesso de trabalho e de demandas que ignoram limites humanos. Parece que vivemos um período das civilizações em que pessoas e instituições estão contaminadas com a idéia de que viver é só produzir, não importa a que custos. Nesse caso, a perda maior é a saúde humana e seus reflexos em relacionamentos ruins, supervalorização da pressa, acidentes no trânsito e superficialidade generalizada. Geram, também, outros efeitos, como “explosões emocionais”, sem causa aparente.
No caso do futebol parece que as pressões por alta e contínua performance, quem sabe dos próprios jogadores e de dirigentes de empresas que financiam o futebol, ignoram a realidade ao não levarem em conta os limites inerentes aos humanos. A sobrecarga no trabalho e o consequente estresse fazem parte do cotidiano de muitas pessoas.
Outros aspectos desse assunto são as estratosféricas quantias de dinheiro envolvidas no futebol profissional. São quantias desproporcionais face ao abandono em que vive grande parte da população mundial. O ser humano não se faz merecedor de ser plenamente feliz, ainda que acumule muito dinheiro, se o mundo onde vive, sua “casa”, é marcado por elevadíssimas desigualdades e empobrecimento da maioria.
Na década de 70 a Organização das Nações Unidas (ONU), elaborou plano para o estabelecimento de Nova Ordem Econômica Internacional visando corrigir as enormes distâncias entre “os que tem” e “os que não tem”. Em documento de trabalho referente a essa proposta afirma-se que não se trata apenas de mudanças na economia e nas finanças. Trata-se de “dramáticas mudanças de atitudes e mentes”. A ênfase, na linguagem típica de época, deveria passar do “ter para o ser e do consumismo para a qualidade de vida”. Lamentavelmente, o poder financeiro e a indiferença humana foram mais fortes do que as nações associadas à ONU. A reforma ficou no papel. Mas, as discrepâncias continuam. Por exemplo:
No noticiário do dia 14/2/2011 o Banco Mundial informa que o aumento generalizado dos alimentos jogou “44 milhões de pessoas abaixo do limite de extrema pobreza entre julho e dezembro de 2010”. As gritantes diferenças, os lucros desproporcionais dos bancos e das empresas continuam a ser obstáculos para que possamos desfrutar a “vida em plenitude” anunciada por Jesus (João 10.10). Cuidar de sistemas, de estruturas é cuidar de pessoas e da vida.
