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"O cuidar é universalmente humano. Ninguém pode cuidar de si mesmo em todas as situações. Ninguém pode, até mesmo, falar a si próprio sem que lhe tivesse sido falado por outrem" (Paul Tillich).


23 de março de 2011

Pós-modernidade? Um comentário

A noção de “tempo pós-moderno” é um tanto vaga. É um tema controverso e não claramente definido. Não seria muito mais um estado de espírito do que um conceito estabelecido científicamente?

De acordo com J. Santos (1986) pós-modernismo é um termo que se aplica às mudanças nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde, aproximadamente, 1950.

A noção, bastante inclusiva e flexível, tem sua origem metafórica a partir de mudanças radicais na arquitetura e da introdução do uso dos computadores. As transformações ocorridas na arquitetura expressavam modificações nas concepções de espaço, estética e utilidade enquanto que o surgimento do computador mudou não apenas a maneira pela qual trabalhamos e nos divertimos como também alterou muitas de nossas imagens e metáforas.

Antes do computador dizia-se que o cérebro humano era uma incrível e complexa máquina. Depois o cérebro humano passou a ser descrito como um computador. A arte “pop” pode, também, ter contribuído para a formulação da idéia na medida em que essa nova tendência nas artes manifestava visões novas a propósito de cor, espaço, beleza e a necessidade de ir-se além do tradicional.

Algumas das características do denominado tempo pós-moderno são:

(1) a tecnologia eletrônica que invade a vida diária com informações, diversões e uma variedade de serviços. Na atual fase de transição da história lidamos mais com sinais e símbolos do que com a realidade mesma;

(2) na economia a atmosfera pós-moderna seduz os indivíduos para o novo “valor” do consumismo. Os shopping centers são os novos altares do tempo pós-moderno;

(3) os tempos pós-modernos são uma ameaça no sentido de favorecer estilos de existência e filosofias que conduzem à ausência de valores sólidos e sentido da vida. O isolamento pessoal, ou o individualismo, o consumismo e o hedonismo são sintomas dessa patologia. Nesse contexto algumas pessoas podem optar por ser um “bebê radiante”, extrovertido e bem ajustado à tecnologia ou um andróide melancólico, um indivíduo sem história, um prisioneiro da tecnociência (Santos 1986).

Qual a relevância da Ação Pastoral nesse clima psicossocial? Antes de tentar responder a essa questão formulamos outra: quando a ação pastoral pode ser considerada irrelevante? A ação pastoral é irrelevante quando: não corresponde às legítimas necessidades humanas; é marcada por uma certa espiritualidade transcendental sem consequências existenciais; não expressa sintonia crítica com as atuais tendências da história.

Ao contrário, a Ação Pastoral, em suas diversas modalidades e especializações, é pertinente quando procura responder às autênticas aspirações humanas por liberdade, auto-respeito e respeito pelos outros. A Ação Pastoral relevante reconhece e apóia as lutas por trabalho digno, moradia, educação e outras formas através das quais as pessoas e povos procuram significado e valor.

Por outro lado a Ação Pastoral, fundamentada nas Escrituras e afinada, profeticamente, com o seu tempo e condições históricas, deve analisar e criticar a realidade do cotidiano; deve alicerçar as perspectivas, as esperanças e a dedicação das pessoas que trabalham por um mundo de equidade e justiça. Não se trata, portanto, de uma espiritualidade alienada, mas, sim de expressão da fé em meio às contingências históricas.

A personalidade humana é moldada, também, pelas circunstâncias da vida. Homens e mulheres ainda são, da mesma forma, fortemente influenciados por sua fé ou herança religiosa. Ambas, a fé a as condições históricas, mesclam-se na vida; essa mistura deve influir na forma e, igualmente, informar as respostas pastorais a uma dada situação. A Ação Pastoral deve considerar esses dois polos (fé e história ou tradição e situação); eles indicam que a “teologia caminha atrás e adiante de nós”. Isto implica em aceitar, tanto na prática como na teoria, o imponderável que é o mistério da Divindade e as limitações e transições da vida (cf. Tillich 1968).

A Ação Pastoral trabalha não apenas com a Escritura e a tradição, mas, também, de acordo com P. Tillich (1968), com os elementos condicionadores da resposta existencial à fé, ou a “interpretação criativa da existência”. De acordo com Tillich a “situação” ou o contexto é um condicionante existencial da experiência de fé. A “situação”, no pensamento de Tillich, significa as grandes referências de interpretação para os níveis científicos, políticos e éticos.

Dessa forma a imutável missão pastoral é adaptar a mensagem cristã às mutáveis condições históricas (cf. Cullmann 1966). Ou, em outras palavras, a tarefa perene da Ação Pastoral é facilitar o contínuo processo humano de busca por sentido na jornada da vida em meio às suas mudanças, aos desesperos, às angústias, injustiças e enfermidades.

Finalmente, resumimos, a seguir o que consideramos serem algumas questões críticas a serem trabalhadas em nível pastoral, no atual “tempo pós-moderno”:

(1) a antiga tensão entre o evento e a instituição (J. Leuba). Essa tensão está na raiz das rejeições e críticas da igreja institucional em nossos agitados tempos. A Ação Pastoral continuará a ser confrontada pelos clamores de muitos por “fé sem a igreja institucional”;

(2) a tendência da maioria das culturas de serem pegas na “rede da prisão tecnológica”. Ou, a ditadura do computador e da indústria da computação. Não se pode ignorar a importância da tecnologia. Entretanto, a finalidade da Ação Pastoral é o bem-estar (shalom, paz, integridade) do ser humano;

(3) o diálogo com as Ciências Sociais com vistas à compreensão realista dos interesses motivadores que culminaram no surgimento da denominada cultura pós-moderna.

A tecnologia presta serviços à vida diária, através de uma ampla variedade de dispositivos e serviços, que variam do absurdo e inútil à eficiência e conservação da vida. Entretanto, os recursos tecnológicos, quaisquer que sejam, não provêem qualquer valor ético inerente; estimulam, sim, um consumismo hedonista (cf. Santos,1986).

Não é descartável a hipótese de que essa ausência de valor intrínseco tenha contribuído para o surgimento da ameaça nuclear, do desastre ecológico, do terrorismo, das crises econômicas, da corrupção política, dos altos gastos com armamentos, da neurose urbana e da insegurança psicológica e espiritual. A tecnologia, aqui referida em termos gerais ou metafóricos, utiliza-se de meios racionais, mas, seus objetivos beiram a irracionalidade: lucro abusivo e poder unilateral (cf. Santos 1986).

Referências bibliográficas
Cullmann, Oscar (1966). Christ et le temps. Paris: Delachaux
Leuba, J. (1950). l’institution et l’événement. Neuchatel e Paris: Delachaux
Santos, Jair F. dos (1988). O que é pós-moderno. 5a. ed. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: 1988
Tillich, P. (1968). Systematic Theology. Londres: James Nisdet & Co.
(Adaptado de SATHLER-ROSA, Ronaldo. Ação pastoral em tempo pós-moderno: uma perspectiva brasileira. Estudos de Religião, XI, 12, dez 1996, São Bernardo do Campo, UMESP.)

Ronaldo Sathler-Rosa

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