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"O cuidar é universalmente humano. Ninguém pode cuidar de si mesmo em todas as situações. Ninguém pode, até mesmo, falar a si próprio sem que lhe tivesse sido falado por outrem" (Paul Tillich).


19 de abril de 2011

OS ROSTOS DE JESUS

O TEMPO DA PÁSCOA é ocasião sempre oportuna para lembrar e pensar sobre Jesus Cristo. Que conteúdos o Evento Cristo provoca no imaginário religioso? Ou, como o Cristo é percebido e vivenciado por grande parte da população, particularmente nos países sul e centro-americanos?

Seguimos e adaptamos aqui estudo feito por Saul Camargo em seu livro Hacia una Cristologia Pastoral Latino-Americana (Por uma Cristologia Pastoral Latino-Americana, 1975). O autor identifica cinco imagens de Jesus Cristo em nosso cenário continental: (1) o Cristo vencido e dolorido; (2) o Cristo do colo e do apadrinhamento; (3) o Cristo dos mistérios e do poder mágico; (4) o Cristo monarca celestial e (5) o Cristo próximo. Resumimos:

(1) O Cristo vencido e dolorido. É o que encontramos nos quadros: um Cristo morto e como vítima trágica. Aparece sempre como o moribundo, os olhos em branco, o rosto contra o solo e o corpo destroçado;

(2) o Cristo do colo e do apadrinhamento. É o Cristo criança, inofensivo e doce como todas as crianças que descansam nos braços de sua mãe. Afirma Camargo: “Este Cristo não pode falar. Seu balbuciar é incompreensível e, às vezes, não se ouve suas exigências. Ele não pode censurar, protestar ante a seus tutores pelo abuso do poder ... por sua injustiça ilimitada contra os homens [e mulheres] vencidos e humilhados. Seu rosto, indiferente ao que ocorre ao redor, permanece sorridente. Sua alegria atrai a multidão a participar de sua inocência infantil. Muitos o apadrinharam, o adotaram e tornaram-se donos d’Ele. Agora [ele] sorri somente para eles. E procura acomodar-se de forma a menos incômoda possível nos braços de seus protetores. Aprendeu a falar a linguagem deles e também, como adotado fiel, fala para eles”.

O que sobrou do Cristo histórico encontra--se nessas duas imagens (Natal e Semana Santa):

(3) O Cristo dos mistérios, do poder mágico: em nosso caso, para levar a cabo o messianismo colonizador. Colonizadores das Américas (Pizarro, Almagro e Frei Hernando de Luque) “participaram da eucaristia no Panamá para selar seu pacto e garantir forças para a empresa da conquista, da expansão e da grandeza”;

(4) o Cristo monarca celestial: concebe-se a Cristo como o monarca a quem cabe o domínio de todas as coisas. A tradução imprópria dessa verdade teológica manifesta-se em dominação política, econômica, cultural e religiosa. O Cristo “monarca se manifestará e se revelará nos monarcas terrenos ... através de reis” (Fernando e Isabel) e de seus representantes (colonizadores, latifundiários...);

(5) o Cristo próximo de Bartolomeu de Las Casas: é o Cristo que se encarna na defesa dos direitos humanos, especialmente dos índios. Las Casas, segundo Camargo, era um pacifista que ensinava que a ação evangelizadora deveria favorecer o entendimento e mover a vontade.

Salienta nosso autor que “as duas imagens, o Cristo vencido e o monarca celestial são os dois rostos do Cristo da opressão: o Cristo da impotência, da resignação que se nega a lutar por estar alienado, vencido; o Cristo do poder constituído, da submissão que não necessita lutar por estar dominando”.

Algumas perguntas: quais são as funções dessas imagens de Jesus? É possível uma articulação dialética entre elas? Contribuem para a formação de uma espiritualidade histórica e transmundana? Facilitam o cuidado mútuo entre nações, grupos, famílias e indivíduos?

Ronaldo Sathler-Rosa

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