Deus depende de nós humanos para cuidar da vida, para realizar o Bem, para lutar pela justiça e para semear o Evangelho de Jesus. A dependência de Deus, portanto, não anula nossa capacidade para disciplinar nosso próprio ser, educar nossa vontade e orientar nossas atitudes para o Bem. A dependência de Deus, também, não nos isenta de nossas responsabilidades pessoais, espirituais e sociais em meio à existência.
O conhecido texto de Gênesis 1.28b, na tradução de Joseph Sittler, afirma: “...E Deus disse-lhes, vocês são [existem] para exercer o cuidado sobre a terra e preservá-la em seu próprio lugar”. Essa porção das Escrituras oferece base essencial para o cuidado e responsabilidade humana pela Criação divina. Mais importante: é a mais antiga afirmação bíblica sobre o que significa ser humano e quais são as tarefas essenciais lhe cabe realizar visando alcançar sua vocação primordial: viver em comunhão com o Criador, conviver e cuidar da Criação.
A expressão bíblica “criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1.27), tem sido interpretada como “capacidade dada por Deus à humanidade, capacidade essa associada a poder. Interpretações mais recentes, no entanto, têm argumentado que a responsabilidade da humanidade não é domínio ou poder sobre a terra, mas, cuidar dela”.
Deus não exerce seu poder de modo autoritário, isolado, do tipo “não preciso de ninguém”. Somos co-criadores na contínua obra da Criação. Em referência à Pessoa do Filho, por exemplo, lemos em II Coríntios 5. 20 que “somos embaixadores em nome de Cristo”. E, ainda em II Coríntios 6.1, somos chamados de “cooperadores com ele”. Deus precisa de nós para cuidar do mundo e para que na história se manifeste Sua Bondade e Salvação.
Vejamos o exemplo de Jesus. Jesus mantém sua sintonia com o Pai (João 6.57; 11.42; 17.10), mas, age com autonomia (Mateus 20.28; João 10: 14-18). A comunhão com Deus se torna tão próxima ao ponto de brotar das próprias fontes da personalidade de Jesus. Jesus mostra, ao mesmo tempo, proximidade com Deus e liberdade pessoal.
A Força Criadora de Deus move nossa vontade e impulsiona nosso ser em movimento criador. A graça de Deus pressupõe a condição humana. A Graça não impede, não destrói, mas, aperfeiçoa a natureza (Tomás de Aquino 1225-1274).
Cabe a nós decidir e exercitar nossa capacidade e dons para sermos o que Deus quer que sejamos: dependentes de nós mesmos e, simultaneamente, inteiramente dependentes de Deus. Deus não fará por nós o que nos cabe fazer por nós mesmos. A fé não exime o ser humano de cumprir suas tarefas em favor de um mundo de paz e de vida plena.
