Dietrich Bonhoeffer é um dos nomes mais conhecidos entre pastores, pastoras e estudantes de teologia. Foi pastor, teólogo e professor de Faculdade de Teologia. Nasceu em 1906. Preso e martirizado por sua participação no Movimento de Resistência ao Nazismo na Alemanha foi executado pelos nazistas em 1945. Combinava, em sua vida e pensamento, a visão mística da fé e da vocação com a atividade de buscar “compreender a fé” (a teologia) a prática pastoral e o exercício da “voz profética” frente a sistemas políticos.
Bonhoeffer, em seus diversos escritos, tratou do tema da espiritualidade cristã em sua relação com a prática pastoral. **Realçava o princípio do amor (agape) como essencial para o relacionamento pastoral com os eclesianos. Sabia dos riscos aos quais clérigos, como seres imperfeitos, estavam sujeitos: terem os seus “favoritos” dentre os paroquianos; serem tendenciosos; serem tratados de forma injusta por participantes da igreja e, igualmente, não dispensarem tratamento amoroso e justo a todos. Orientava para que os pregadores vivessem pelo princípio do amor o qual supera, em importância, o valor dos relacionamentos interpessoais.
Ressaltamos e atualizamos três elementos do pensamento e prática de Bonhoeffer.
(1) A qualidade do relacionamento entre pastores e pastoras é de fundamental importância para a vida da Igreja. “Nada é mais destrutivo para uma congregação do que a animosidade pessoal e o ódio” entre colegas de vocação. Além disso, esses sentimentos concorrem para que se instalem, no mundo interno do pastor, sentimentos de culpa - e, eventualmente, sintomas físicos doentios - especialmente porque a pastora e o pastor são portadores da mensagem do perdão e da reconciliação. O mais saudável é, quando for o caso, “falar a verdade em amor” através de conversa franca e esclarecedora e resolver a pendência. Não se trata de “por panos quentes”. Trata-se, nesta busca de diálogo, de expressar desapontamentos ou mágoas, de maneira realista e fundamentada nas Boas Novas que proclamamos.
Segundo Bonhoeffer “a regra deve ser jamais dizer qualquer coisa contra” o colega. Adverte também para que o pastor jamais crie clima que favoreça a prática de maledicência contra seus colegas e entre seus próprios eclesianos. Nesse contexto lembra que é comum que uma congregação precise de algum tempo para acostumar-se com um pastor ou pastora recém-chegado. Os laços com o antecessor são, em geral, fortes. Essa situação, especialmente em casos de mudanças recentes do quadro pastoral, exige do novo pastor ou pastora muita humildade, sabedoria, segurança pessoal e compreensão do lugar do afeto nos relacionamentos humanos.
Alerta para o dever de “preservar-se a solidariedade do ofício” evitando aceitar comentários maldosos por parte de membros da congregação contra os antecessores. É bom sempre lembrar o recado de vários homens e mulheres, experientes na vivência pastoral: quem fala mal de seu antecessor é o mesmo que falará mal de você quando você mudar de igreja!
“Se a Igreja é o Corpo de Cristo então os seus servidores estão ligados indissociavelmente uns aos outros”, ressalta Bonhoeffer. Pastores e pastoras são mais do que colegas: são irmãos e irmãs uns dos outros e membros do mesmo Corpo de Cristo.
(2) O pastor e a pastora precisam de alguém que lhes ofereça assistência espiritual. “Somente quem tem sido assistido em sua espiritualidade é que é capaz de exercitar o cuidado espiritual” em favor dos outros. É mais do que a ajuda mútua e a solidariedade que devemos uns aos outros. É ter o seu pastor ou pastora que ajude a escrutinar o seu próprio ser, a identificar as áreas de sua personalidade que necessitam de maior atenção e ajudar a corrigir atitudes que destoam da espiritualidade pregada e cantada nos cultos da Igreja. Além disso, precisamos de alguém que interceda, em oração, por nós, diariamente. “Aqueles que vivem sem assistência espiritual movem-se, facilmente, na direção da magia e da dominação sobre os outros.”
Entretanto, Bonhoeffer advertia que a dependência excessiva de outra pessoa pode “resultar em falta de resistência e frouxidão interna”. Há coisas, ou aspectos, da espiritualidade do individuo que devem ser trabalhadas por elas ou eles próprios. A “finalidade do cuidado espiritual é guiar a pessoa no percurso de sua própria luta até o ponto onde ela possa caminhar por si mesma”. Dessa forma criam-se condições para a maturidade e a autonomia.
A assistência espiritual de pastores e pastoras deve levar em conta as responsabilidades próprias do pastoreio. Pastores e pastoras realizam visitas, caminham com as dores e provações de eclesianos e proclamam a Palavra em situações tão diversas tais como em funerais, casamentos, batizados entre outras. É fundamental que a pastora e o pastor tenham, em sua assistência espiritual, um ponto de referência para refletir e meditar sobre as variadas e complexas atividades em que se envolvem no dia-a-dia. A carga emocional e espiritual é muito pesada. É preciso reparti-la com alguém.
Não é fácil achar alguém com quem o pastor ou a pastora se sinta à vontade para repartir suas lutas e para receber apoio e orientação. O recomendável é que cada colega escolha alguém e o/a convide para desempenhar esse ministério de acompanhamento e oração. Se a distância impede encontros regulares, a correspondência escrita, a internet, o telefone, podem suprir essa deficiência. O importante: é preciso confiar em alguém e aceitar o risco de abrir-se para seu próprio crescimento e progresso na carreira ministerial.
(3) Viver pela fé é diferente de pensar a fé. Fazer teologia, ou seja, tentar compreender e explicar a fé é tarefa de toda pessoa que anuncia o Reino de Cristo. Aí existe um risco. O pensar a fé não substitui o viver a fé. O conhecimento é importante, mas, a experiência da fé, o viver em fé, afirma Bonhoeffer, está acima do pensar a fé. Em outras palavras, a reflexão teológica não substitui a experiência da fé.
Uma dificuldade é que, geralmente, pastores e pastoras têm que pregar muitas vezes. A intensidade e a diversidade de situações podem ser obstáculos para que se encontre tempo para discernir entre o pensar sobre a fé e o viver em fé. É uma barreira prática a ser enfrentada.
Para Bonhoeffer a pregação não se baseia em experiência pessoal, porém, fundamenta-se na Escritura. Ao mesmo tempo não podemos pregar a partir da Bíblia se não cremos, ou se não experimentamos em nós mesmos a verdade que anunciamos. Resta o trabalho de encontrar o equilíbrio e a clareza entre a verdade experimentada e a verdade do aprendizado do estudo da Escritura e da teologia.
Nesse particular a prática da meditação, da oração e da leitura regular são recursos importantes para a espiritualidade da pastora e do pastor. É essencial a regularidade dessas práticas a despeito dos imprevistos da vida pastoral. As leituras de obras teológico-pastorais, às vezes sem a intenção inicial de serem usadas para estudos ou sermões, são alimentos indispensáveis para aliar-se o pensar a fé e o viver a fé.
Nesses difíceis tempos - em muitos casos e em vários países - de falta de confiança mútua entre clérigos e laicato, de desgaste da imagem pastoral junto a setores importantes da Igreja e da sociedade é fundamental ir às raízes mesmas da vocação ministerial. As receitas e eventuais Códigos de Ética não podem ser, jamais, substitutos da matéria prima que compõe o pastoreio: a resposta à vocação divina em forma de amor a Cristo e perseverança na disciplina da espiritualidade centralizada em Jesus e no serviço ao próximo.
[**] O livro Spiritual Care (Cuidado Espiritual), de D. Bonhoeffer, Jay Rochelle, trad., Fortress Press, USA, 1985, é a principal fonte deste artigo. Adaptação de SATHLER-ROSA, Ronaldo. Cuidado pastoral em tempos de insegurança. Uma hermenêutica contemporânea. 2. ed. São Paulo: 2010.
