As práticas de cuidado pastoral caminham, geralmente, em paralelo a essas classificações.
No período clássico a atenção pastoral é centrada na mensagem e seus elementos constitutivos oriundos da teologia e da tradição: oração, leitura e estudo das Escrituras, participação regular das celebrações litúrgicas, além de outros, compõem, principalmente, o repertório teológico-pastoral dessa fase.
Do paradigma moderno emerge o chamado “moderno movimento de cuidado pastoral” ou “clínica pastoral” (1950 e anos seguintes). Deixa marcas, também, no tempo apelidado de pós-moderno. É marcante a influência da psicologia. Predomina especialmente na América do Norte, em países europeus e na Oceania. Exerceu influência, em menor proporção, nas Américas do Sul e Central e na África. Diferentemente do paradigma clássico faz recair sua ênfase sobre a pessoa: tanto a pessoa que oferece como aquela que recebe cuidado pastoral. Patton credita a Edward Thornton a descrição das mudanças ocorridas no âmbito mesmo dessa nova ênfase nas teorias e práticas do cuidado pastoral: do que pastores e pastoras devem fazer para o que devem saber, alternando-se entre o que devem dizer e o que devem ser.
Do paradigma pós-moderno emerge com força renovada o modelo comunal e contextual. Tem como referência os movimentos ecumênicos da segunda metade do século vinte e sua continuação nos primórdios do século vinte e um. Crescem em força as comunidades de fé, as igrejas locais, as congregações. As tradicionais hierarquias eclesiásticas são contestadas não meramente no confronto direto, mas, sobretudo nas práticas e formas de organização eclesial. Surgem em contexto sócio-cultural de emancipação do indivíduo e de maior atenção às condições externas à sua existência. Fatores psicossociais que afetam a mensagem e as pessoas são considerados cruciais. O cuidado pastoral em perspectiva comunal e contextual é menos hierárquico (Patton, p. 5).
A ênfase à comunidade como centro irradiador da mensagem cristã e como contexto de cuidado mútuo entre seus membros não é estranha à história do cristianismo. Passagens bíblicas como I Coríntios 12 e Efésios 4, bastante conhecidas, evidenciam a importância da comunhão dos fiéis na comunicação do Evangelho e na mutualidade do cuidado.
Trata-se de optar por um paradigma e excluir outros? Não. Os três paradigmas representam contribuições perenes à compreensão da natureza do cuidado pastoral. Podem, portanto, mesclar-se com diferentes ênfases teológico-pastorais.
Por exemplo. Embora represente um avanço, o modelo comunal e contextual não desconsidera a contribuição do paradigma clássico. A mensagem, destacada pelo paradigma clássico, comunica aos contemporâneos que “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hebreus 13.8). Essa mensagem, reinterpretada na atualidade, lembra aos humanos que Deus cuida, contìnuamente, de Sua Criação e nos convida à comunhão com Deus e ao convívio uns com os outros.
Por outro lado, as pessoas e suas condições peculiares, realçadas no paradigma moderno, devem ser devidamente apreciadas. As dinâmicas próprias da personalidade humana devem ser estudadas com o auxílio das respectivas ciências. Outra característica do paradigma moderno a ser conservada nos lembra que o modo como alguém cuida de outrem está, inevitavelmente, relacionado com o modo com que cuida de si mesmo (a). Cuidado pastoral implica tanto em ser (autenticidade, congruência) como em fazer algo: aprendemos mais e melhor sobre nós mesmos e como cuidar de outros por meio da experiência e da auto-reflexão (Patton, p. 5).
O modelo comunal e contextual nos traz uma compreensão ao mesmo tempo antiga e nova de cuidado pastoral. É tradicional porque se baseia nas representações bíblicas de um Deus Cuidador que reúne filhos e filhas em uma comunidade que celebra esse Cuidado e os estende a outros. É nova porque realça os diversos contextos e vários protagonistas de ações de cuidado. Não focaliza, exclusivamente, o cuidado pastoral na pessoa de um pastor ou pastora. Pastores e pastoras passam, então, a ser facilitadores do exercício do cuidado pastoral por todos os membros da comunidade de fé.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PATTON, John. Pastoral care in context. An introduction to pastoral care. Louisville: Westminster/John Knox Press, 1993
