"O que mais efetivamente nos chama a atenção neste mundo em que vivemos é, em geral e em primeiro lugar, que a maioria dos homens (exceto os crentes de todas as espécies) não tem futuro algum. Nenhuma vida é válida sem projeção no futuro, sem promessa de amadurecimento e progresso (Albert Camus. O século do medo). "
A “fisionomia de nosso tempo” é exposta pelo jornalista francês Jean Claude-Guillebaud no livro A reinvenção do mundo (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003). Seu texto surpreende pela familiaridade com outros estudiosos que se tornaram referência na interpretação das relações políticas e econômicas do mundo industrial e “pós-industrial”.
Guillebaud abre sua radiografia de nossos tempos violentos referindo-se ao texto do livro de Salmos, capítulo primeiro, que “evoca aquela ‘sociedade de zombadores’, no meio da qual o justo jamais deveria se sentar”. As sociedades da modernidade zombam da “idéia da refundação”. As idéias e pretensas convicções se repetem e, como em passe de mágica, assumem ares de verdades incontestáveis: “não adianta, o mundo não vai mudar”; “as coisas são assim mesmo”...
Essas e outras expressões mostram a eficácia dos zombadores em incutir a idéia de que não é possível reinventar o mundo, o modo de ser das pessoas, suas condutas sociais e as estruturas estabelecidas. Mesmo nós cristãos, às vezes não mostramos em nós mesmos e em nossas formas de organização a mensagem na qual anunciamos que o Evangelho é força de Deus que nos leva à não-conformação com este mundo e que é fonte de inspiração para fazer novas todas as coisas (cf. Romanos 1.16; 12.2; Apocalipse 21.5). O alinhamento com a poder do Evangelho é substituído pelas “alianças” (Juan Luis Segundo) com os zombadores.
As discussões e interrogações humanas esquivam-se de enfrentar as “urgências de fundo”. Não desafiamos as questões essenciais que tornam nosso mundo cruel e intolerante. Detemo-nos nas coisas superficiais e não chegamos às raízes do mal-estar em nossa contemporaneidade.
Guillebaud advoga posição de confronto com o que denomina, equivocadamente, de “prudência dos anciãos”: o receio de lidar de frente, a omissão de nossas culturas epidérmicas, superficiais, que se caracterizam por “concessões ao relativismo” e aceitação passiva do jogo dos zombadores.
Uma recente e infeliz expressão de um político brasileiro talvez reflita bem a atitude geral dos zombadores: se “lixam” para as aspirações mais autênticas dos seres humanos por um mundo melhor.
