Quais são as insatisfações mais evidentes da atualidade? O que está errado em nossas chamadas civilizações modernas? Quais os males que rondam nosso planeta e nossa existência?
Apesar da complexidade e da generalidade dessas perguntas, o historiador inglês Tony Judt (1948-2010) ousa buscar respostas. Em seu livro O mal ronda a terra (Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2011) Judt usa lentes de seu campo de estudos para compreender os dramas que têm marcado as denominadas culturas ocidentais nos séculos vinte e vinte e um.
Além disso, identifica fatos e situações críticas da contemporaneidade a partir da “parcialidade” de suas observações dos noticiários, de conversas com seus alunos e com seus filhos adolescentes. Não nega tendência a privilegiar determinado viés ideológico. Entretanto, não se atém de maneira rígida a nenhuma escola de pensamento. Não se furta, ademais, a indicar o que deve ser feito para reinventar o mundo.
Judt abre seu texto com uma coisa bem concreta: a exagerada atração pela acumulação egoísta de bens materiais, visível, também, na obsessão, alimentada culturalmente, por compras e por trocas desnecessárias de produtos. Essa tendência acentuou-se, principalmente, segundo Judt, nos últimos trinta anos.
A busca compulsiva, o exagero, além da inutilidade de muitos “bens” altera atitudes e formas de convívio humano. Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, referiu-se a essa predominante tendência pela procura desmesurada da riqueza, essa ânsia pelo “crescimento” econômico a qualquer custo, como “exuberante irracionalidade”. Ainda mais: “Sabemos o preço das coisas, mas não temos idéia de seu valor” (p. 15).
A ganância nos leva ao descaso pelo outro, nos transforma em seres apáticos, isolados em nossa comum-unidade ao redor de nosso novo “bezerro de ouro”. Trágica conseqüência é a negligência do que nos é comum: o descuido pelo espaço público comum, o descaso pelo cuidado mútuo, a desatenção ao dever da preservação das coisas que devem tornar a vida nesse “lado do céu” mais satisfatória. O descuido pelas coisas necessárias à vida de todos e dos meios vitais volta-se, igualmente, contra o próprio indivíduo.
O cuidado com o próximo manifesta-se no cuidado com aquilo que é necessário para que a vida flua em plenitude: o uso apropriado dos recursos da natureza, os transportes públicos, as instalações para uso comum, parques, estradas, ruas, calçadas. Certamente que esse cuidado diminui a violência e melhora os relacionamentos entre as pessoas. Esse cuidado transmite reverência pelos Bens da Criação, relativização dos bens provisórios e embeleza a vida.
