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"O cuidar é universalmente humano. Ninguém pode cuidar de si mesmo em todas as situações. Ninguém pode, até mesmo, falar a si próprio sem que lhe tivesse sido falado por outrem" (Paul Tillich).


9 de dezembro de 2011

“QUEM FURTA POUCO É LADRÃO,/QUEM FURTA MUITO É BARÃO,/QUEM MAIS FURTA E MAIS ESCONDE/ PASSA DE BARÃO A VISCONDE.”


A corrupção sempre se deu bem no Brasil.

Jurandir Freire Costa, psicanalista e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em seu livro A ética e o espelho da cultura (2000), vê no cinismo uma das características da sociedade brasileira.

O cinismo, nesse caso, se mostra pelo desprezo à lei. “Estamos hoje no país da descrença.” Em situações de passividade, impunidade e desconfiança não se acredita na eficácia das leis. A história recente do país, especialmente o período da ditadura militar (1964-1984), foi marcada pelo descaso pelas leis, pelo terrorismo de Estado, pela “legislação de exceção”, conforme tese de doutorado de Ângela Caniato (1995). Deixou marcas por aqui.

De acordo com Costa “existe um elo indissolúvel entre o político que lesa o erário público, o cidadão que ultrapassa o sinal vermelho e o assaltante que mata”. Seria o povo brasileiro conivente com a corrupção? Estudos conduzidos por Marcelo Medeiros (2006) ao analisar resultados de pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), afirma que sim, apesar de reclamar tanto dos políticos profissionais e do Estado.

 Estudos históricos recentes mostram os antecedentes do que, seguindo Costa, se pode denominar de “cultura da corrupção”.

Ronaldo Vainfas (2007), autor de Trópico dos pecados, professor titular de história da Universidade Federal Fluminense, detém-se no estudo do período do Brasil Colônia (1500-1822). Cita estudos realizados em 1920, por Paulo Prado, que “viu na cobiça um dos maiores pecados de nossa formação histórica. Obsessão diabólica pela riqueza fácil, o açúcar, tabaco, ouro e os diamantes”.

O célebre Raízes do Brasil, escrito em 1930 por Sérgio Buarque de Holanda, confirma Paulo Prado e salienta o “caráter predatório da colonização portuguesa”. Ainda Vainfas: “Mas o fato é que a corrupção em nossos três primeiros séculos, não chegava a ser uma irregularidade. Pelo contrário, era institucionalizada e derivava do que Raimundo Faoro chamou de Estado patrimonial, no qual o público e o privado se imbricavam completamente”.

Outro estudo recente, de Isabel Lustosa (2007), historiadora da Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro, examina o período do Brasil Império (1822-1889). A prática da corrupção já se achava instalada naquele período. Conforme Lustosa, “uma quadrinha que dizia:

‘Quem furta pouco é ladrão,/quem furta muito é barão,/quem mais furta e mais esconde/passa de barão a visconde’,

era dirigida ao “tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço”.

Conhecer a história ajuda a atuar pela transformação do presente. O cuidado de pessoas e famílias inclui, necessariamente, a atenção e ações de cuidado da cultura onde se vive. É o cuidado pastoral de sistemas.

(Adaptado e revisado de SATHLER-ROSA, Ronaldo. O sagrado da política. São Paulo: Fonte  Editorial, 2010.)

Ronaldo Sathler-Rosa

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